domingo, 14 de fevereiro de 2010

REINALDO POLITO (junho/2008)

Fale um pouco de como você se interessou por esse trabalho e de como começou a fazê-lo. Fui aluno do professor Oswaldo Melantonio. O professor Melantonio tinha uma escola ali na rua Bela Cintra, e durante 50 anos foi o maior professor de oratória do país. Fui levar um amigo meu, chamado Johnny, que era uma pessoa muito tímida: você olhava para o Johnny, ele ficava vermelho. E aí, descobri, por intermédio de um outro colega que fazia o curso lá no Melantonio, o Rogério, que o curso era muito bom para tirar a timidez, então levei o Johnny lá, mas eu não tinha nenhum interesse em fazer curso de oratória. Aí, quando eu conheci o professor Melantonio, me apaixonei pela escola dele, pelo professor... nunca tinha visto nada igual àquilo. O Johnny não ficou lá – porque ele era muito tímido – e eu acabei ficando.

O professor Melantonio viu tanto entusiasmo, tanta dedicação e tanto empenho, que me convidou para ser assistente dele. Então, eu fiquei durante 7 anos na escola dele, aprendi muito com ele. Depois, vôo solo e estou nisso há 32 anos.

Qual a importância de falar bem? Falar bem é importante em todas as circunstâncias da vida. Se você pegar hoje uma pessoa com uma vida regular que tenha passado pela escola, e que vai fazer uma faculdade, já no curso ela tem que fazer apresentação dos trabalhos dela. No momento de concluir o curso, ela tem que fazer a apresentação do TCC – o trabalho de conclusão de curso. E, nesse momento, ela está sendo avaliada, porque às vezes faz um trabalho muito bem feito, mas se a apresentação não tiver qualidade, isso pode prejudicá-la.

Quando faz a faculdade essa pessoa, vai procurar um emprego, participar de entrevistas, fazer parte de dinâmicas de grupo, e tem que falar do seu potencial, porque nem sempre sai da faculdade com experiência; tem que mostrar que tem potencial e que isso pode ser aproveitado. Como mostrar esse potencial? Com uma boa explicação.

Depois que você entra no mercado de trabalho, você começa a crescer, a progredir, galgar as posições maiores. Depois que você passa da supervisão, gerência, diretoria, o que menos vai ser utilizado é o conhecimento técnico, porque quanto mais você crescer, mais você entende de comunicação e menos do conhecimento técnico. Você tem que participar de reuniões, apresentar projetos, participar de processos de negociação... enfim, se a sua comunicação não for boa, você pára de crescer e, às vezes, até perde aquilo o que conquistou.

E no relacionamento social, você numa roda de amigos, conversando com as pessoas, com a família, saber como apresentar uma informação, como contrariar alguém... se a comunicação for eficiente, você evita conflitos a partir daí.

Nós notamos que mesmo em conversas informais há pessoas que não sabem falar. Mal se entende o que elas estão dizendo. Você atribui isso à timidez ou à falta de preparo para falar? Você tem aí vários pontos. Quando a pessoa é tímida, realmente não consegue concatenar as idéias, mas é muito comum a pessoa não saber organizar o raciocínio: não sabe como iniciar, preparar, desenvolver e concluir. Quantos que conversam com você e falam sem dizer qual é o assunto, e você fica tentando, no meio da conversa descobrir sobre o que a pessoa está falando. Então, esse é um problema técnico básico de comunicação: você tem que dizer logo sobre o que está falando, onde pretende chegar, qual é o objetivo da sua apresentação. Você tem que saber que se vai apresentar uma solução para um determinado problema, tem que explicar antes qual é o problema, a fim de que a pessoa possa entender bem a solução que você vai apresentar. Se o assunto for muito complexo, muito intrincado, é interessante que você faça uma divisão, e a partir da divisão, você torna a sua fala didática. Isso você usa para falar em público e para uma conversa no dia-a-dia com as pessoas. Então normalmente as pessoas são tímidas, não têm muita informação, e o que têm não sabem organizar de uma forma correta.

Você poderia falar um pouco sobre timidez, e como ela influencia quem ouve o tímido falar? Veja só, a timidez em si não é prejudicial desde que ela seja controlada. Poderia dizer que, sem nenhum estudo científico, que a maioria das pessoas é tímida. Eu vejo que os professores que trabalham na minha escola também são tímidos, mas são pessoas que aprenderam a dominar isso de tal forma que não têm nenhum tipo de prejuízo.

Eu, particularmente, prefiro uma pessoa mais tímida a uma pessoa muito extrovertida, porque aquele que tem um pouco de timidez se prepara de forma mais conveniente, estuda mais aquilo que vai apresentar, o tipo de ouvinte para quem vai falar. Enquanto aquele que é mais extrovertido diz “Não, deixa comigo...”. Ele acha que consegue falar para qualquer platéia, então não se prepara, não respeita o ouvinte, e a chance de ele errar é maior. Agora, não pode ser uma timidez tão acentuada que ela domine, e você não consiga explorar o seu potencial, não faz com que prevaleçam as suas características de comunicação, não consiga associar as idéias, explorar a sua inteligência. Aí não. Mas, um pouquinho de timidez ajuda.

Como podemos usar técnicas de comunicação, voz e gramática corretamente sem perder a naturalidade? Se eu fizesse o que muita gente faz – incorretamente – que é tentar impor uma técnica de fora para dentro, tudo isso seria impossível. Mas, o que eu faço? Eu descubro que tipo de potencial essa pessoa tem, como ela age naturalmente quando está muito à vontade, por exemplo, com o pai, com a mãe, com o irmão. Quando consigo descobrir que tipo de comunicação essa pessoa tem, eu levo para a situação formal, aquilo que ela já sabe fazer. Então, eu não vou impor nenhuma técnica, eu vou só ensinar para essa pessoa como aproveitar, como explorar aquilo que ela já aprendeu na vida.

Um professor na minha escola só fica em sala de aula sozinho depois de cinco anos de treinamento. Por que isso? Para que ele aprenda a não querer impor técnicas de fora para dentro, para que ele aprenda a identificar a técnica que a pessoa já tenha e como isso pode ser aproveitado de forma positiva. O professor leva 5 anos para começar, mas para ficar realmente bom nisso levará de 10 a 15 anos. Eu tenho professor trabalhando comigo há mais de 25 anos.

Como esse é o Mês dos Namorados você poderia falar um pouco sobre como a comunicação pode atrapalhar a relação entre um casal? O problema todo começa quando aquele que fala não consegue compreender o outro. A pessoa precisa sair dela mesma para que exista empatia, e se colocar no lugar da outra pessoa para saber como essa pessoa se sentiria. Então, a pergunta que tem que ser feita é: “Como eu gostaria de ouvir o que eu vou falar para o meu namorado/namorada? Se eu ouvisse da maneira como eu iria falar, eu me sentiria chateado ou não?”. Se a resposta for positiva, “Eu me sentiria chateado com isso”, aí tem que mudar, você tem que se perguntar “De que forma eu gostaria que isso fosse falado para mim, de que forma eu gostaria que isso fosse apresentado?”. Às vezes, você vai chegar à conclusão que é melhor não falar nada, pois vai perceber que não gostaria de ouvir àquilo que você iria dizer à outra pessoa. Então, o melhor é não falar nada, é ficar quieto. Por isso, é muito importante compreender o outro, colocar-se no lugar da pessoa, e não fazer para o outro o que você não gostaria que fizessem com você. Esse é meio caminho andando para que não haja problemas.

Além disso, você vai ter a gentileza, cordialidade, compreensão... e é isso que alimenta o relacionamento. Com o tempo o relacionamento vai se vulgarizando, vai se banalizando. Aí a pessoa não respeita mais a outra, tem aquilo como certo e garantido na vida. É como aquela expressão inglesa que diz “Take for granted”. Então a pessoa pensa que está tudo certo e que não tem com o que se preocupar. Mas, isso tem que ser alimentado e regado o tempo, na base da consideração, da valorização, saber fazer um elogio na hora certa, não ficar competindo com o outro – a competição mata um relacionamento. Se não existir essa competição, mas houver solidariedade, torcida e admiração mútua, aí são garantidos pelo menos seis meses!

Deixe uma mensagem para seus leitores. Por maior que seja o problema de comunicação, por mais insegura que a pessoa seja, ela pode ter certeza absoluta que tudo isso tem solução. Em 32 anos, nunca encontrei uma pessoa sequer com boa vontade, dedicada e empenhada, que não conseguisse superar os seus problemas de comunicação. Então, as pessoas às vezes vêem a cena do filme; eu posso dizer que com empenho e dedicação o final do filme vai ser muito agradável. Tenho assistido verdadeiras transformações: pessoas que não conseguiam dizer o nome, e que hoje estão muito felizes fazendo as suas exposições por aí.

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